O Renascimento Old School – Parte I

O lançamento do D&D 3ª Edição em 2000 desagradou muita gente, principalmente os RPGistas mais antigos, que começaram a jogar com o D&D de Gary Gygax e que reclamaram do excesso de regras e da mudança no estilo de jogo. A solução foi continuar com os mesmos jogos de 20 anos atrás.

Com a internet, muitos desses jogadores se reuniram em fóruns de discussão, para trocar experiências sobre seus jogos favoritos, house-rules e divulgar seus próprios materiais, criando netbooks e zines. Ironicamente, o empurrão que faltava para tudo deslanchar de vez veio com o próprio advento da 3E, com a criação da Open Game License (OGL) e do System Reference Document (SRD).

Com a OGL/SRD qualquer pessoa do mundo poderia pegar a mecânica do D&D e usá-la, modifica-la e distribuí-la da maneira que bem entendesse. Além disso, poderia ainda lançar no mercado seus próprios suplementos para o jogo da Wizards of the Coast. Mas ainda cansados das regras mais complexas (ataques de oportunidade!), alguns jogadores (e empresas) começaram a usar a OGL de uma maneira diferente da que foi proposta originalmente, criando jogos diferentes (e que “competem” com D&D) que lembravam as edições anteriores (tanto em regras quanto em “estilo de jogo”) de Dungeons & Dragons. A coisa deu certo e nos últimos anos vários novos jogos (a maioria deles disponibilizados gratuitamente na internet), blogs, revistas, fóruns e editoras amadoras surgiram. Esse “boom” também foi responsável pela volta de muitos jogadores “aposentados” ao RPG (há até quem diga até que a 4ª edição foi a melhor coisa que poderia acontecer, por fazer com que muitos voltassem a jogar as versões mais antigas). Daí o nome de “Renascimento Old School”, ou “Old School Renaissance”, como está sendo chamado todo esse movimento lá fora.

Alguns desses novos jogos surgidos (chamados de retrô-clones ou simulacros) tinham regras que remetiam quase que inteiramente a certas edições de D&D. Muito foi discutido sobre a legalidade desses velhos-novos jogos, mas é quase consenso que está tudo dentro da lei. Tal semelhança entre as mecânicas possibilitou que se lançassem suplementos inteiramente compatíveis com RPG’s não mais produzidos hoje em dia, sem problemas com copyright. Não havia necessidade de precisar pedir permissão para a Wizards ou quem quer que detenha os direitos sobre o(s) jogo(s) hoje em dia. Antigamente, isso afastava de certa forma alguns RPGistas, que se recusavam a jogar algo que não tinha mais suporte da editora, não tinha lançamentos de aventuras e suplementos todos os meses. Obviamente que o fato de um jogo estar ou não estar mais sendo produzido não impede ninguém de jogá-lo, mas afasta os novos jogadores. Quem hoje vai a uma livraria só encontra livros da 4ª Edição à venda.

A grande maioria das “editoras” lança seus trabalhos em PDF. O trabalho impresso é feito através de serviços terceirizados de print-on-demand, ou seja, os livros são impressos na quantidade que o leitor quer. É um jeito seguro de se produzir, já que editoras amadoras não teriam capital para investir na produção de certa quantidade de livros (e ter que conviver com um possível encalhe, já que não é venda garantida). Mas praticamente não há lucro, é tudo vendido quase que a preço de custo. Um sinal de que isso pode estar mudando é que no início desse ano a Brave Halfling Publishing foi a primeira a se transformar em uma editora de fato, ganhando muito mais liberdade para produzir.

É impossível saber se o “renascimento” será um sucesso, se irá atingir um público maior ou se permanecerá restrito a um nicho de jogadores. Ainda é necessário quebrar algumas barreiras, como a crença de que o antigo é ultrapassado, por exemplo (lembram do vídeo que a Wizards fez para promover a 4E?). Mas um sucesso inicial já foi alcançado, ou esse e vários outros blogs, jogos e zines não teriam sido criados e atraído a atenção, mesmo que leve, dos interessados em role-playing games. O movimento ainda está na sua infância, e só nos resta observar os próximos passos que serão tomados por jogadores, escritores e editoras, sempre desejando que aconteça o melhor para nosso hobbie.

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Na próxima parte do artigo, a descrição dos principais jogos “retrô” criados nesse período.

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3 Respostas to “O Renascimento Old School – Parte I”

  1. Danielfo Says:

    Não sei pq se referem a OLD School, alguém aprende mesmo algo nesta New School???

  2. Gabriel Says:

    É interessante perceber que nesse movimento estão também diversos artistas que estão produzindo cada vez mais ilustrações para esse levante da “velha guarda” dos RPGs. Aí vão dois muito legais:

    http://www.freewebs.com/mullenart/index.htm
    http://curmudgeonsdragons.blogspot.com/

    • Daniel Oliveira Says:

      Certamente tem surgido muitos artistas novos e bons. O Pete Mullen é na minha opinião um dos melhores, a arte dele na capa de Swords & Wizardry e na primeira edição da revista Knockspell (falarei dela no próximo artigo) é sensacional. O Steve Zieser é muito bom também, foi ele quem fez a capa do Original Edition Characters que você citou no outro comentário (apesar de aquela arte ser chupinhada de um desenho do OD&D).
      Abraço e valeu por acompanhar o blog!

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